Editorial

Ciência não é opinião

Science is not opinion

La Ciencia No Es Opinión

1. César Augusto Trinta Weber
e-mail orcid Lattes

2. Antônio Geraldo da Silva
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Filiação dos autores:

1 [Professor, Faculdade de Medicina da Universidade Luterana do Brasil, ULBRA, Canoas, RS, Brasil. Preceptor do Ambulatório de Psiquiatria do Hospital Universitário de Canoas, Canoas, RS, Brasil]

2 [Psiquiatra Forense; Pós-Doutor em Medicina Molecular; Professor da Faculdade Paulista de Ciências da Saúde, São Paulo, SP, Brasil; Presidente, Associação Brasileira de Psiquiatria, Rio de Jenrio, RJ, Brasil.

Editor-chefe responsável pelo artigo: Leandro Fernandes Malloy-Diniz

Contribuição dos autores segundo a Taxonomia CRediT: Weber CAT, da Silva AG [1, 10, 13, 14].

Conflito de interesses: declaram não haver.

Fonte de financiamento: não se aplica.

Parecer CEP: não se aplica.

Recebido em: 06/03/2026 | Aprovado em: 07/03/2026 | Publicado em: 12/03/2026

Como citar: Weber CAT, da Silva AG. Ciência não é opinião. Debates Psiquiatr. 2026;16:1-4. https://doi.org/10.25118/2763-9037.2026.v16.1575

A medicina contemporânea enfrenta um desafio epistemológico crescente: a erosão da crítica científica diante de narrativas sedutoras, porém frágeis. O debate sobre o uso da cannabis sob o rótulo de “medicinal” é um exemplo emblemático desse fenômeno. A afirmação de que ciência não é opinião não é uma frase de efeito, é a fronteira que separa a prática clínica segura da lógica do marketing, da pressão social e de crenças que não se submetem a critérios de verificabilidade.

Em um cenário em que discursos sobre “produtos naturais”, “terapias alternativas” e “autonomia no cuidado” ganham destaque, torna-se essencial reafirmar a natureza da medicina: uma prática fundada em evidências sistematicamente avaliadas, e não em percepções subjetivas ou construções retóricas.

A publicação da revisão sistemática no JAMA em 2026 reforça esse ponto. O trabalho sintetiza décadas de estudos e demonstra, com clareza, que a evidência é insuficiente para a maioria das indicações para as quais a cannabis é promovida. O contraste entre os achados científicos e a narrativa amplamente difundida, apoiada em testemunhos pessoais, mídia especializada e expansão global de dispensários, revela uma discrepância estrutural entre discurso e dado. O termo “medicinal” passou a ser usado de forma estratégica pelo marketing para diminuir a percepção de riscos de todas as pessoas e para gerar empatia, favorecendo, assim, o aumento do consumo da maconha .

A prática clínica exige que alegações terapêuticas se apoiem em metodologia adequada, e não em apelos emotivos. Entretanto, persiste no imaginário popular a percepção de que o uso de cannabis para ansiedade, dor ou insônia seria benigno, natural e seguro.

A revisão mostra que apenas indicações muito específicas dispõem de evidências razoáveis, notadamente náusea induzida por quimioterapia e epilepsias refratárias tratadas com CBD farmacêutico, com pureza rigorosamente controlada. Para o restante das indicações populares, faltam evidências sólidas ou os riscos superam os potenciais benefícios .

A literatura demonstra ainda que a maior parte dos produtos vendidos como medicinais não atende a padrões farmacêuticos mínimos . Estudos mostram que esses produtos apresentam teor de THC semelhante ao de produtos recreativos, sem padronização consistente entre fornecedores. A distinção entre mercados recreativo e medicinal, portanto, frequentemente não se sustenta do ponto de vista químico ou farmacológico .

Os riscos psiquiátricos associados a produtos de alta potência reforçam essa preocupação. Há relação direta entre maior concentração de THC e aumento de psicose, ansiedade, depressão e dependência . Meta-análises indicam que parcela significativa dos usuários por motivos médicos preenche critérios para transtorno por uso da substância, índice incompatível com a ideia de segurança sugerida pelo rótulo .

Somam-se a isso problemas de rotulagem e contaminação. A ausência de precisão farmacêutica, requisito básico para qualquer medicamento, impossibilita dosagem segura, compromete estudos clínicos e aumenta riscos toxicológicos, incluindo exposição a pesticidas, metais pesados e solventes .

Do ponto de vista epidemiológico, observa-se crescimento do uso clínico em ambiente onde a própria categoria profissional médica relata falta de preparo. O uso do termo cannabis medicinal avançou mais rapidamente que o conhecimento científico sobre o tema, criando terreno fértil para decisões baseadas em opinião, não em evidência .

Sociedades científicas internacionais reforçam a cautela. A American Psychiatric Association recomenda explicitamente não utilizar cannabis para tratar transtornos psiquiátricos . Relatórios das National Academies concluem que a maioria das indicações médicas carece de evidência definitiva, enquanto riscos permanecem subestimados .

O conjunto desses dados revela que cannabis medicinal é, na maior parte das vezes, uma construção discursiva eficaz do ponto de vista comunicacional, mas frágil enquanto categoria científica. Para a medicina, a designação medicinal só pode se aplicar a produtos submetidos aos mesmos critérios de controle, pureza, estabilidade e eficácia exigidos de qualquer medicamento.

Ciência não é opinião. É um processo disciplinado que existe justamente para conter o fascínio por soluções simples para problemas complexos. O debate sobre cannabis deve ser amplo, mas precisa ser conduzido com base em evidência, não em narrativa. Defender esse princípio é uma exigência ética da medicina contemporânea.

Referências

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Debates em Psiquiatria, Rio de Janeiro. 2026