Filiação dos autores:
1 [Especializanda, Psiquiatria, Faculdade Afya Educação Médica, Curitiba, PR, Brasil]
2 [Graduanda, Medicina, Universidade de Marília, UNIMAR, Marília, SP, Brasil]
3 [Professora, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, PUC-MG, Belo Horizonte, MG, Brasil].
Editor-chefe responsável pelo artigo: Alexandre Valença
Contribuição dos autores segundo a Taxonomia CRediT: Paiva MZ [1,5,6, 14], Amaro BG [1, 5, 10, 13], Lage PS [10, 14].
Conflito de interesses: declaram não haver.
Fonte de financiamento: não se aplica.
Parecer CEP: não se aplica.
Recebido em: 09/03/2026 | Aprovado em: 18/05/2026 | Publicado em: 01/06/2026
Como citar: Paiva MZ, Amaro BG, Lage PS. Benefícios do uso da terapia eletroconvulsiva (ECT) no tratamento dos sintomas motores e neuropsiquiátricos da doença de Parkinson. Debates Psiquiatr. 2026;16:1-17, e1580. https://doi.org/10.25118/2763-9037.2026.v16.1580
Introdução: A doença de Parkinson (DP) é uma doença neurodegenerativa crônica com alterações em várias vias de neurotransmissores. As manifestações clínicas incluem alterações motoras como bradicinesia e hipocinesia, juntamente com tremor de repouso e/ou rigidez. Os pacientes ainda podem apresentar sintomas não motores, relacionados à própria doença ou aos medicamentos usados para tratá-la, incluindo manifestações neuropsiquiátricas como: sintomas psicóticos, disfunção cognitiva, depressão, ansiedade, apatia e catatonia. O tratamento envolve abordagens farmacológicas, na qual a levodopa é o medicamento de primeira escolha, podendo ser associado a outros fármacos e não farmacológicas, como exercícios, terapia e eletroconvulsoterapia (ECT). Estudos tem descrito a ECT como um método seguro e eficiente no tratamento de diversas condições psiquiátricas (como a depressão e a psicose) e neurológicas (doença de Parkinson), principalmente quando o tratamento farmacológico não é eficaz. Em relação a estudos na DP trabalhos tem demonstrado uma melhora tanto nos sintomas motores, quanto não motores. Objetivo: a meta desse trabalho foi revisar e expor os efeitos benéficos do uso da eletroconvulsoterapia no tratamento da DP. Metodologia: Foi utilizada a metodologia SANRA (Scale for the Assessment of Narrative Review Articles). Foi realizada uma revisão da literatura, com a seleção de artigos publicados em periódicos das bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), National Library of Medicine/NLM (PUBMED) e UpToDate. Resultados: Os resultados encontrados demonstraram que o uso da ECT apresenta ganhos ao tratamento farmacológico, principalmente quando associada a outras medidas psicoterapêuticas. Conclusão: Dessa maneira, é recomendável o uso da ECT para o tratamento da DP a fim de melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Palavras-chave: doença de Parkinson, eletroconvulsoterapia, manifestações clínicas, efeitos positivos.
Introduction: Parkinson's disease (PD) is a chronic neurodegenerative disease with alterations in several neurotransmitter pathways. Clinical manifestations include motor changes such as bradykinesia and hypokinesia, along with resting tremor and/or rigidity. Patients may also present with non-motor symptoms related to the disease itself or to the medications used to treat it, including neuropsychiatric manifestations such as psychotic symptoms, cognitive dysfunction, depression, anxiety, apathy, and catatonia. Treatment involves pharmacological approaches, with levodopa being the first-line drug, which may be combined with other drugs, and non-pharmacological approaches such as exercise, therapy, and electroconvulsive therapy (ECT). Studies have described ECT as a safe and efficient method in the treatment of various psychiatric (such as depression and psychosis) and neurological (Parkinson's disease) conditions, especially when pharmacological treatment is ineffective. Regarding studies on PD, research has demonstrated improvement in both motor and non-motor symptoms. Objective: The goal of this study was to review and present the beneficial effects of electroconvulsive therapy (ECT) in the treatment of Parkinson's disease (PD). Methodology: The SANRA (Scale for the Assessment of Narrative Review Articles) methodology was used. A literature review was conducted, selecting articles published in journals from the Scientific Electronic Library Online (SciELO), National Library of Medicine/NLM (PUBMED), and UpToDate databases. Results: The results showed that the use of ECT offers advantages over pharmacological treatment, especially when combined with other psychotherapeutic measures. Conclusion: Therefore, the use of ECT for the treatment of PD is recommended to improve the quality of life of patients.
Keywords: Parkinson's disease, electroconvulsive therapy, clinical manifestations, positive effects.
Introducción: La enfermedad de Parkinson (EP) es una enfermedad neurodegenerativa crónica con alteraciones en diversas vías de neurotransmisores. Las manifestaciones clínicas incluyen cambios motores como bradicinesia e hipocinesia, junto con temblor y/o rigidez en reposo. Los pacientes también pueden presentar síntomas nos motores relacionados con la propia enfermedad o con los medicamentos utilizados para tratarla, incluyendo manifestaciones neuropsiquiátricas como síntomas psicóticos, disfunción cognitiva, depresión, ansiedad, apatía y catatonia. El tratamiento incluye enfoques farmacológicos, siendo la levodopa el fármaco de primera línea, que puede combinarse con otros fármacos, y enfoques no farmacológicos como el ejercicio, la terapia y la terapia electroconvulsiva (TEC). Los estudios han descrito la TEC como un método seguro y eficaz en el tratamiento de diversas afecciones psiquiátricas (como la depresión y la psicosis) y neurológicas (enfermedad de Parkinson), especialmente cuando el tratamiento farmacológico es ineficaz. En cuanto a los estudios sobre la EP, las investigaciones han demostrado una mejoría tanto en los síntomas motores como en los nos motores. Objetivo: El objetivo de este estudio fue revisar y presentar los efectos beneficiosos de la terapia electroconvulsiva (TEC) en el tratamiento de la enfermedad de Parkinson (EP). Metodología: Se utilizó la metodología SANRA (Escala para la Evaluación de Artículos de Revisión Narrativa). Se realizó una revisión bibliográfica, seleccionando artículos publicados en revistas de las bases de datos Scientific Electronic Library Online (SciELO), National Library of Medicine/NLM (PUBMED) y UpToDate. Resultados: Los resultados mostraron que el uso de la TEC ofrece ventajas sobre el tratamiento farmacológico, especialmente cuando se combina con otras medidas psicoterapéuticas. Conclusión: Por lo tanto, se recomienda el uso de la TEC para el tratamiento de la EP con el fin de mejorar la calidad de vida de los pacientes.
Palabras clave: enfermedad de Alzheimer, insomnio, zolpidem, efectos adversos.
A doença de Parkinson (DP) é a segunda doença neurodegenerativa mais comum em idosos, ficando atrás apenas da doença de Alzheimer, e associa-se a um aumento da morbidade e da mortalidade . A DP é uma patologia do sistema nervoso central, caracterizada pela perda gradual de neurônios dopaminérgicos presentes na substância negra mesencéfalo . Como a dopamina está ligada à atividade motora, a depleção de dopamina é a principal causa da DP .
Os dados epidemiológicos da doença apresentam divergências quanto à incidência e prevalência; entretanto, estima-se que mais de 10 milhões de pessoas no mundo convivam com a patologia. A DP ocupa o segundo lugar entre as doenças neurodegenerativas mais prevalentes, sendo superada apenas pela doença de Alzheimer. A taxa de incidência mediana em países desenvolvidos é de 14/100.000 habitantes, o risco de apresentação em mulheres está estimado em 1,3% e para homens em 2%. No Brasil, índices atuais apontam para o aumento no número de casos e isso é decorrente do envelhecimento populacional e do aprimoramento das técnicas de diagnóstico .
No que se refere à probabilidade de desenvolvimento a doença, reconhece-se a existência de diversos fatores de risco associados, uma vez que a DP possui etiologia multifatorial e caráter idiopático . A idade é o fator de risco mais significativo. Além disso, há forte componente genético relacionado à doença, com mais de 90 loci identificados. Fatores ambientais, como pesticidas e poluentes da água, e fatores comportamentais, como tabagismo, consumo excessivo de cafeína e traumatismo craniano, também demonstram participação na patogênese da DP em diferentes populações .
Em relação as manifestações clínicas, a DP apresenta um padrão complexo, composto por manifestações motoras, como: tremor, bradicinesia, instabilidade postural, marcha arrastada, postura curvada, discinesia, rigidez muscular, episódios de congelamento e micrografia. Também ocorrem manifestações não motoras incluindo disfunção cognitiva, sintomas psicóticos, ansiedade, apatia e depressão, sendo a depressão e psicose os sintomas mais frequentes. Além disso, pode haver disautonomia de intensidade variável, manifestando-se por hipotensão ortostática, disfunção sexual, constipação, insônia, parassonias, síndrome das pernas inquietas e distúrbios do sono e da vigília. Geralmente, esses sintomas surgem na fase prodrômica, anos antes do aparecimento evidente da deficiência dopaminérgica .
O diagnóstico da DP continua a ser um desafio, ainda representa um desafio, pois suas características clínicas frequentemente se sobrepõem às de outras doenças neurodegenerativas, e os testes diagnósticos ou biomarcadores disponíveis ainda não permitem confirmação definitiva nos estágios iniciais .
Dessa maneira, o principal método diagnóstico é a avaliação clínica. A bradicinesia é considerada o sintoma cardinal, devendo estar associada a pelo menos um sintoma adicional, como tremor de repouso, rigidez ou instabilidade postural. Uma anamnese detalhada e um exame neurológico completo são fundamentais para excluir outras condições médicas semelhantes à DP .
O tratamento varia de acordo com as manifestações clínicas. Sendo a farmacoterapia o tratamento priorizado, no qual os fármacos mais usados incluem a Levodopa, medicamento de primeira escolha. Outros fármacos incluem agonistas dopaminérgicos, medicamentos anticolinérgicos e diferentes associações terapêuticas, muitos dos quais podem ocasionar efeitos adversos, inclusive psiquiátricos.
Com a progressão da patologia vários pacientes acabam desenvolvendo uma resposta ineficaz ao tratamento medicamentoso, isso ocorre devido a redução da sensibilidade dos receptores dopaminérgicos pós-sinápticos e ainda pode haver efeitos colaterais intoleráveis, como o debilitante fenômeno "on/off ", no qual a eficácia da Levodopa reduz drasticamente antes da próxima dose.
Já em relação as manifestações não motoras, a psicofarmacoterapia é atualmente considerada o tratamento de primeira escolha principalmente para depressão e para psicose. Entretanto, em casos refratários, estudos demonstraram que a eletroconvulsivaterapia (ECT) apresenta efeitos benéficos tanto nos sintomas psiquiátricos quanto nos neurológicos .
Inicialmente, a ECT foi utilizada em pacientes parkinsonianos com comorbidade psiquiátrica, principalmente depressão grave. Posteriormente, foi aplicada em casos de catatonia relacionada à DP, e mais tarde no tratamento de sintomas psicóticos. Embora, os mecanismos de ação da ECT ainda não estejam completamente elucidados, estudos futuros são necessários para compreender melhor seus efeitos antidepressivos, antipsicóticos e antiparkinsonianos .
Diversos estudos indicaram que a ECT pode ser um tratamento eficaz e seguro para pacientes com doença de Parkinson que não respondem de forma ideal aos tratamentos de primeira linha. Apesar disso, a técnica ainda é pouco utilizada na prática clínica, mesmo em casos resistentes ao tratamento, possivelmente devido ao estigma associado ao procedimento, ao desconhecimento acerca de sua segurança e eficácia e à dificuldade em prever a duração do benefício terapêutico .
Neste contexto, buscou-se, por meio desta revisão integrativa, apresentar os efeitos positivos do uso da ECT nos sintomas motores e não motores da DP descritos na literatura científica.
Foi utilizada a metodologia SANRA (Scale for the Assessment of Narrative Review Articles) quando o manuscrito esclareceu: 1. número total de registros identificados e analisados; 2. estratégias de busca utilizadas em cada base de dados; 3. critérios operacionais de inclusão e exclusão; 4. processo de seleção dos estudos; 5. justificativa para escolha das referências incluídas.
Este artigo foi elaborado utilizando a seleção de artigos publicados nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), National Library of Medicine/NLM (PUBMED) e UpToDate. O procedimento ocorreu em duas fases. Inicialmente, foi realizada uma busca por artigos nacionais e internacionais nos idiomas português e inglês, utilizando os descritores: Doença de Parkinson, Terapia eletroconvulsiva, diagnóstico e tratamento da Doença de Parkinson, Parkinson’s disease, Electroconvulsive Therapy Terapia eletroconvulsiva em desordens psiquiátricas, diagnosis and treatments in Parkinson’s disease and Electroconvulsive Therapy in Psychiatric Disorders, resultando em um total de 3.342 artigos.
Posteriormente, foram definidos critérios para a leitura integral dos artigos. Os critérios de inclusão definidos foram: artigos publicados entre 2015 a 2025, em inglês ou português, principalmente aqueles de livre acesso nos bancos de dados. Foram excluídos os trabalhos com animais. Ao término do processo 24 artigos foram selecionados, interpretados e elaborou-se uma síntese das informações.
Para expor de forma objetiva os achados desses estudos, foi confeccionada o Quadro 1, contendo as seguintes informações: autor e ano de publicação, objetivos dos estudos, resultados e conclusões derivadas das pesquisas.
Como descrito anteriormente, a DP ocorre devido à degeneração dos neurônios dopaminérgicos, presentes na substância negra do mesencéfalo, e acúmulo de corpos de Lewy. A degeneração e perda funcional dessa região cerebral desencadeia às manifestações clínicas. Entretanto a patologia também acomete neurônios colinérgicos, serotoninérgicos e noradrenérgicos, justificando os sintomas motores e não-motores, além da grande variabilidade na progressão da doença entre os pacientes .
A DP apresenta múltiplos subtipos com diferentes prognósticos. Indivíduos com o subtipo maligno difuso, constituem de 9% a 16% dos pacientes e estes apresentam sintomas motores e não motores evidenciados precocemente, a resposta ao tratamento é insatisfatória com medicação usual e ocorre rápida progressão da doença, ou seja, estes pacientes apresentam pior prognóstico. Já os indivíduos com DP leve, correspondem à maioria dos pacientes, variando entre 49% e 53% dos casos. Nesse grupo, predominam manifestações motoras leves, boa resposta aos medicamentos dopaminérgicos, como carbidopa-levodopa e agonistas da dopamina, e progressão mais lenta da doença. E por fim, há indivíduos que manifestam o subtipo intermediário. Embora ainda não exista cura para a DP, o uso de fármacos é essencial para o controle sintomatológico e para desacelerar a progressão da doença .
Outro ponto importante do tratamento é a necessidade progressiva de doses maiores e mais frequentes de levodopa ao longo do tempo. Isso pode ser explicado devido a evolução da doença, uma vez que, ocorre uma perda relativa à resposta ao medicamento dopaminérgico, e o medicamento apresenta curta duração, diminuindo a resposta ao fármaco. Esse fenômeno está relacionado a fatores fisiopatológicos relacionados à doença e às alterações cerebrais decorrentes da degeneração neuronal. A capacidade de armazenar dopamina para utilização posterior diminui significativamente, aumentando a necessidade de administrações mais frequentes do medicamento .
O tratamento independente dos subtipos é sintomático, e esse foca na melhora das manifestações clínicas. Os sintomas não motores parecem ser os mais incapacitantes, e embora a levodopa seja considerada o “padrão ouro” para o manejo dos sintomas motores, o tratamento das manifestações não motoras ainda representa um desafio terapêutico .
Em casos refratários, o uso da eletroconvulsivaterapia (ECT) demonstrou ter efeitos benéficos tanto nos sintomas neuropsiquiátricos quanto nos sintomas motores de pacientes. A maioria desses estudos são estudos prospectivos ou retrospectivos não controlados, ou relatos de casos .
Um estudo retrospectivo realizado entre 2002 a 2013, avaliou 27 pacientes com DP internados em unidade de psiquiátrica para tratamento com ECT.
Todos os pacientes faziam tratamento farmacológico e a este foi adicionado a ECT. Observou-se melhora significativa tanto dos sintomas neuropsiquiátricos quanto dos motores em todos os casos. A intervenção foi bem tolerada, apenas oito pacientes apresentaram desorientação após o procedimento; em todos os casos, o estado confusional foi transitório e se resolveu sem qualquer tratamento adicional .
Uma revisão sistemática e metanálise realizada por Takamiya (2021), concluiu que a ECT promoveu melhora significativa das manifestações motoras, inclusive em pacientes sem sintomas psiquiátricos. Além disso, observou-se melhora dos sintomas depressivos e psicóticos, redução da resistência medicamentosa e ausência de prejuízo cognitivo significativo.
Relato de caso realizado por Ramesh e colaboradores, em 2019, demonstrou a eficácia da ECT no tratamento dos sintomas motores e neuropsiquiátricos em um paciente com DP avançada, associada a catatonia .
Os mecanismos de ação da ECT ainda não estão bem esclarecidos, mas uma das hipóteses é que ela aumenta a responsividade à dopamina pós-sináptica, regulando positivamente os receptores de dopamina no núcleo estriado e aumenta os níveis de levodopa ao romper a barreira hematoencefálica. Além disso, potencializa a neurotransmissão serotoninérgica e a ativação das vias mesocorticolímbicas. E por melhorar a transmissão dopaminérgica e, portanto, alivia os sintomas motores da DP .
Com base nos dados expostos é possível concluir que a realização da ECT em pacientes com sintomas refratários, resposta insatisfatória às farmacoterapias convencionais é considerada uma alternativa segura e eficaz para o manejo de sintomas neuropsiquiátricos especialmente depressão resistente e psicose. Além disso, a técnica também promove alívio temporário dos sintomas motores.
Dessa forma, tornam-se necessários novos estudos que busquem compreender melhor os mecanismos de ação da ECT na DP, bem como ampliar o conhecimento acerca de sua aplicação clínica, possibilitando que mais profissionais utilizem essa abordagem terapêutica, contribuindo para a melhora e otimização do tratamento de pacientes com pior prognóstico.
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