Artigos de Revisão

Treinamento parental baseado em princípios cognitivo-comportamentais no TDAH: revisão narrativa das evidências recentes

Parent training based on cognitive-behavioural principles in ADHD: a narrative review of recent evidence

Entrenamiento parental basado en principios cognitivo-conductuales en el TDAH: revisión narrativa de la evidencia reciente

1. Danilo Bastos Bispo Ferreira
e-mail orcid Lattes

2. Railma Coutinho de Oliveira
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3. Thaís Carreiro de Morais
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4. Fernanda Bastos Bispo Ferreira
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5. Ciro Sousa de Moura Fé
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6. Allan Maia Andrade de Souza
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7. Ana Christina Mageste Castelar Campos
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Filiação dos autores:

1 [Psiquiatra, Professor, Universidade Federal de Alagoas, UFAL, Arapiraca, AL, Brasil]

22 [Psiquiatra, Psiquiatra da Infância e Adolescência, Hospital Nina Rodrigues, HNR, São Luís, MA, Brasil]

3 [Psiquiatra, Professora, Universidade Professor Edson Antônio Velano, UNIFENAS, Belo Horizonte, MG, Brasil]

4 [Médica, Universidade Federal de Alagoas, UFAL, Arapiraca, AL, Brasil]

5 [Residente, Psiquiatria, Hospital Nina Rodrigues, HNR, São Luís, MA, Brasil]

6 [Psiquiatra Psicoterapeuta, Professor, Universidade Federal de Alagoas, UFAL, Maceió, AL, Brasil]

7 [Psiquiatra da Infância e Adolescência, Hospital Infantil João Paulo II, HIJPII, Belo Horizonte, MG, Brasil]

Editor-chefe responsável pelo artigo: César Augusto Trinta Weber

Contribuição dos autores segundo a Taxonomia CRediT: Ferreira DBB [1, 3, 5, 6, 7, 12, 13, 14], Oliveira RC, Morais TC [5, 6, 13, 14], Ferreira FBB, Fé CSM [5, 13, 14], Souza AMA, Castelar Campos ACM [1, 7, 13, 14].

Conflito de interesses: declaram não haver.

Fonte de financiamento: não se aplica.

Parecer CEP: não se aplica.

Recebido em: 29/04/2026 | Aprovado em: 18/07/2026 | Publicado em: 19/07/2026

Como citar: Ferreira DBB, Oliveira RC, Morais TC, Ferreira FBB, Fé CSM, Souza AMA, Castelar Campos ACM. Treinamento parental baseado em princípios cognitivo-comportamentais no TDAH: revisão narrativa das evidências recentes. Debates Psiquiatr. 2026;16:1-28, e1599. https://doi.org/10.25118/2763-9037.2026.v16.1599

Resumo

Introdução: O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma das condições neuropsiquiátricas mais prevalentes na infância, com impacto significativo sobre o funcionamento familiar. O treinamento parental (TP) baseado em princípios cognitivo-comportamentais emerge como estratégia não farmacológica central, porém sua efetividade em desfechos ampliados (incluindo qualidade de vida, estresse parental e indicadores cognitivos), merece síntese atualizada. Objetivo: Sintetizar criticamente as evidências recentes sobre o treinamento parental baseado em princípios cognitivo-comportamentais no manejo do TDAH infanto-juvenil, com ênfase em desfechos comportamentais, parentais e de qualidade de vida. Métodos: Revisão narrativa estruturada, conduzida de acordo com os princípios da escala SANRA (Scale for the Assessment of Narrative Review Articles), com busca orientada na base PubMed/MEDLINE, abrangendo publicações de janeiro de 2020 a julho de 2026 (busca executada em julho de 2026), nos idiomas inglês, português e espanhol. Foram priorizados estudos primários com intervenções estruturadas de treinamento de pais baseado em princípios cognitivo-comportamentais em cuidadores de crianças e adolescentes com TDAH. Revisões, editoriais e relatos de caso foram excluídos. A análise dos estudos foi realizada de modo crítico e descritivo, considerando delineamento, amostra, desfechos e limitações metodológicas. Resultados: A busca recuperou 161 registros; após exclusão de 44 por tipo de publicação, 117 estudos primários foram triados, dos quais 41 eram ensaios clínicos randomizados, e oito foram selecionados, de forma intencional, para síntese crítica. A maioria demonstrou redução estatisticamente significativa de sintomas de TDAH ou de comportamentos externalizantes nos filhos. Em parte dos estudos, também foram observadas melhorias na competência ou na autoeficácia parental, no estresse dos cuidadores, nas práticas parentais, no controle inibitório e na qualidade de vida. Os programas Triple P, o modelo de treinamento comportamental de pais (BPT) e adaptações nacionais foram os mais frequentemente avaliados. Conclusão: Em conjunto, os achados indicam evidência favorável ao treinamento parental baseado em princípios cognitivo-comportamentais, com benefícios mais consistentes sobre comportamentos externalizantes e práticas parentais, e achados menos uniformes para estresse familiar e outros desfechos parentais. A heterogeneidade dos delineamentos e desfechos, bem como a seleção intencional dos estudos, recomenda cautela na generalização. Seu uso deve ser integrado ao cuidado multimodal.

Palavras-chave: TDAH, treinamento de pais, TCC, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, terapia cognitivo-comportamental, psicoeducação, qualidade de vida.

Abstract

Introduction: Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD) is one of the most prevalent neuropsychiatric conditions in childhood, with significant impact on family functioning. Parent training (PT) based on cognitive-behavioural principles emerges as a central non-pharmacological strategy; however, its effectiveness on broader outcomes (including quality of life, parental stress, and cognitive indicators), warrants updated synthesis. Objective: To critically synthesize recent evidence on parent training based on cognitive-behavioural principles in the management of ADHD in children and adolescents, with emphasis on behavioural, parental, and quality-of-life outcomes. Methods: A structured narrative review, conducted in accordance with the principles of the SANRA (Scale for the Assessment of Narrative Review Articles), with an oriented search in PubMed/MEDLINE, covering publications from January 2020 to July 2026 (search run in July 2026), in English, Portuguese, and Spanish. Primary studies of structured parent training based on cognitive-behavioural principles for caregivers of children and adolescents with ADHD were prioritized. Reviews, editorials, and case reports were excluded. Studies were analyzed critically and descriptively regarding study design, sample characteristics, outcomes, and methodological limitations. Results: The search retrieved 161 records; after excluding 44 by publication type, 117 primary studies were screened, of which 41 were randomized controlled trials, and eight were purposively selected for critical synthesis. The majority demonstrated statistically significant reductions in ADHD symptoms or externalising behaviours. In some of the studies, improvements were also observed in parental competence or self-efficacy, caregiver stress, parenting practices, inhibitory control, and quality of life. Triple P, behavioural parent training programmes, and national adaptations were the most frequently evaluated. Conclusion: Overall, findings indicate favourable evidence for parent training based on cognitive-behavioural principles, with more consistent benefits on externalising behaviours and parenting practices, and less uniform findings for family stress and other parental outcomes. Heterogeneity of designs and outcomes, as well as the purposive selection of studies, warrants caution in generalising. Its use should be integrated into multimodal care.

Keywords: ADHD, parent training, CBT, attention deficit hyperactivity disorder, cognitive behavioral therapy, psychoeducation, quality of life.

Resumen

Introducción: El Trastorno por Déficit de Atención e Hiperactividad (TDAH) es una de las condiciones neuropsiquiátricas más prevalentes en la infancia, con un impacto significativo en el funcionamiento familiar. El entrenamiento parental (EP) basado en principios cognitivo-conductuales surge como estrategia no farmacológica central; sin embargo, su efectividad en desenlaces más amplios (incluyendo calidad de vida, estrés parental e indicadores cognitivos), merece una síntesis actualizada. Objetivo: Sintetizar críticamente la evidencia reciente sobre el entrenamiento parental basado en principios cognitivo-conductuales en el manejo del TDAH infanto-juvenil, con énfasis en desenlaces conductuales, parentales y de calidad de vida. Métodos: Revisión narrativa estructurada, realizada de acuerdo con los principios de la escala SANRA (Scale for the Assessment of Narrative Review Articles), con búsqueda orientada en PubMed/MEDLINE, abarcando publicaciones de enero de 2020 a julio de 2026 (búsqueda ejecutada en julio de 2026) en inglés, portugués y español. Se priorizaron estudios primarios de intervenciones estructuradas de EP basadas en principios cognitivo-conductuales en cuidadores de niños y adolescentes con TDAH. Se excluyeron revisiones, editoriales y reportes de caso. Los estudios se analizaron de modo crítico y descriptivo. Resultados: La búsqueda recuperó 161 registros; tras excluir 44 por tipo de publicación, se cribaron 117 estudios primarios, de los cuales 41 eran ensayos clínicos aleatorizados, y ocho fueron seleccionados intencionalmente para la síntesis crítica. La mayoría demostró reducciones significativas en síntomas de TDAH o en conductas externalizantes. En parte de los estudios también se observaron mejoras en la competencia o la autoeficacia parental, en el estrés de los cuidadores, en las prácticas parentales, en el control inhibitorio y en la calidad de vida. Conclusión: En conjunto, los hallazgos indican evidencia favorable al entrenamiento parental basado en principios cognitivo-conductuales, con beneficios más consistentes sobre las conductas externalizantes y las prácticas parentales, y hallazgos menos uniformes para el estrés familiar y otros desenlaces parentales. La heterogeneidad de los diseños y desenlaces, así como la selección intencional de los estudios, recomienda cautela en la generalización. Persisten brechas en la estandarización de formatos, adaptación cultural y seguimiento a largo plazo.

Palabras clave: TDAH, entrenamiento de padres, terapia cognitivo-conductual, trastorno por déficit de atención e hiperactividad, psicoeducación, calidad de vida.

Introdução

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição neuropsiquiátrica crônica que afeta entre 5% e 7% das crianças e adolescentes em todo o mundo, configurando-se como um dos diagnósticos mais frequentes na psiquiatria infanto-juvenil . Caracterizado por desatenção, hiperatividade e impulsividade em graus que comprometem o funcionamento adaptativo, o TDAH impõe ônus significativo não apenas à criança, mas a toda a dinâmica familiar: pais de filhos com TDAH relatam níveis mais elevados de estresse parental, menor senso de competência e maior prevalência de disfunções no relacionamento com os filhos em comparação a pais de crianças com desenvolvimento típico .

Do ponto de vista terapêutico, o manejo do TDAH é reconhecidamente multimodal, combinando farmacoterapia, especialmente estimulantes como o metilfenidato e as anfetaminas, com intervenções psicossociais e psicoeducacionais . Embora os medicamentos demonstrem eficácia consolidada na redução de sintomas nucleares, cerca de 20% a 30% dos pacientes apresentam resposta parcial ou efeitos adversos limitantes, e diversas famílias expressam preferência por abordagens não farmacológicas como primeira linha ou adjuvante . Nesse contexto, o Treinamento de Pais (TP) emerge como uma das intervenções psicossociais com maior suporte empírico para o TDAH em crianças e adolescentes .

O TP consiste em intervenção psicoeducacional e comportamental estruturada, voltada a capacitar cuidadores no manejo de comportamentos difíceis por meio de técnicas derivadas da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), incluindo reforço positivo, extinção, economia de fichas, comunicação parental assertiva e resolução de problemas . Cabe, contudo, uma distinção terminológica relevante para a leitura desta revisão: a maior parte dos programas disponíveis é primariamente comportamental, fundada em princípios da aprendizagem operante e no modelo coercitivo de interação familiar, sendo descrita na literatura como treinamento parental comportamental (behavioral parent training) ou parent management training; apenas parte deles incorpora, de modo explícito, componentes cognitivos dirigidos aos cuidadores, como a reestruturação de crenças disfuncionais acerca do comportamento da criança e do diagnóstico. Neste artigo, a expressão "baseado em princípios cognitivo-comportamentais" designa esse conjunto mais amplo de intervenções, sem pressupor que todos os programas analisados constituam TCC formal. Programas paradigmáticos, como o Triple P, o Incredible Years e o Parent Management Training de Barkley, foram amplamente estudados e têm base em princípios da aprendizagem comportamental e da teoria cognitiva, integrando modificação de contingências ambientais com reestruturação das cognições parentais acerca do comportamento dos filhos .

Evidências anteriores já sustentam a efetividade do TP na redução de comportamentos externalizantes e no aprimoramento das práticas parentais . Contudo, a literatura mais recente tem avançado para desfechos mais amplos: qualidade de vida da criança, funcionamento escolar, estresse parental, autoeficácia dos cuidadores e desfechos cognitivos objetivos, como medidas laboratoriais de controle inibitório. Ademais, o cenário pós-pandêmico trouxe novas modalidades de entrega, a saber: formatos online, aplicativos e intervenções híbridas, cujas evidências demandam síntese crítica atualizada .

Considerando o crescimento da literatura sobre TP em TDAH nos últimos anos, a heterogeneidade dos formatos disponíveis e a relevância clínica da temática para psiquiatras, pediatras, psicólogos e equipes multiprofissionais, torna-se essencial analisar criticamente as evidências recentes. Este artigo tem como objetivo sintetizar os principais achados de ensaios clínicos randomizados publicados entre janeiro de 2020 e julho de 2026, com ênfase nos desfechos comportamentais das crianças, nos impactos sobre as práticas e o bem-estar parentais, e na qualidade de vida dos envolvidos.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão narrativa estruturada da literatura recente sobre treinamento parental baseado em princípios cognitivo-comportamentais para crianças e adolescentes com TDAH. Optou-se por esse delineamento em razão da heterogeneidade dos estudos quanto aos formatos de intervenção, perfis amostrais, duração dos programas e desfechos avaliados, o que limita comparações quantitativas diretas e inviabilizaria a aplicação de critérios exigidos para revisões sistemáticas ou meta-análises.

Esta revisão foi conduzida e estruturada de acordo com os princípios da escala SANRA (Scale for the Assessment of Narrative Review Articles) , adotada como referencial metodológico por oferecer critérios explícitos de qualidade para revisões narrativas, a saber: justificativa da relevância do tema para a audiência, formulação de objetivos ou questões específicas, descrição da estratégia de busca, referenciamento adequado das afirmações, raciocínio científico na apresentação das evidências e apresentação apropriada dos dados. A escolha do delineamento narrativo, em detrimento de uma revisão sistemática, justifica-se pelo objetivo de oferecer síntese crítica e clinicamente orientada da literatura recente, voltada à educação continuada de psiquiatras e residentes, preservando-se elementos de transparência metodológica: busca estruturada em base indexada, critérios explícitos de elegibilidade, documentação do processo de seleção e extração padronizada de variáveis.

A busca foi conduzida na base PubMed/MEDLINE, em razão de sua ampla cobertura de ensaios clínicos em psiquiatria, neurociências e saúde da criança. Reconhece-se que a consulta adicional a bases como PsycINFO e Scopus, fundamentais para a literatura em psicologia clínica e intervenções psicoterápicas, poderia ampliar o alcance da síntese, sendo recomendada em versões futuras ou em revisões sistemáticas subsequentes.

Foi utilizada a seguinte estratégia: ( "attention deficit disorder with hyperactivity" [MeSH Terms] OR "ADHD" [Title/Abstract] OR "attention deficit hyperactivity disorder" [Title/Abstract]) AND ("parent training" [Title/Abstract] OR "parent management training" [Title/Abstract] OR "behavioral parent training" [Title/Abstract] OR "parenting program" [Title/Abstract] OR "parent-based intervention" [Title/Abstract] ).

A busca foi executada em 16 de julho de 2026 e recuperou 161 registros após a aplicação do filtro de idiomas. Foram priorizados estudos primários que investigassem intervenções estruturadas de treinamento de pais com base cognitivo-comportamental em cuidadores de crianças e adolescentes com TDAH. Foram elegíveis artigos publicados entre janeiro de 2020 e julho de 2026, nos idiomas inglês, português ou espanhol.

Foram incluídos ensaios clínicos randomizados (RCTs), estudos piloto, estudos observacionais e ensaios clínicos controlados que investigaram intervenções de TP baseadas em princípios cognitivo-comportamentais, aplicadas a cuidadores de crianças ou adolescentes com diagnóstico de TDAH segundo critérios clínicos padronizados (DSM-5 ou CID-11).

Foram excluídos relatos de caso, revisões narrativas e sistemáticas, editoriais, cartas ao editor, além de estudos cujo desfecho principal não incluísse avaliação de comportamentos da criança ou de competências/bem-estar parentais por instrumentos validados. Estudos com populações exclusivamente adultas também foram excluídos. Dentre os estudos elegíveis, procedeu-se a uma seleção intencional (purposive) de ensaios clínicos randomizados que avaliassem o treinamento parental como intervenção primária, priorizando-se a diversidade de programas, de formatos de entrega (grupal presencial, domiciliar e digital), de contextos geográficos e de desfechos infantis e parentais. Não se pretendeu exaustividade, conforme explicitado nas limitações.

A seleção dos estudos foi realizada com leitura de títulos, resumos e textos completos dos artigos identificados. Os registros recuperados foram inicialmente triados por tipo de publicação, com exclusão de revisões, meta-análises, editoriais, cartas, protocolos de ensaios e capítulos de livro; os estudos primários remanescentes foram avaliados quanto aos critérios de elegibilidade. A triagem dos títulos e resumos foi conduzida por dois autores, e as divergências quanto à elegibilidade foram resolvidas por discussão e consenso, com consulta ao texto completo do artigo nos casos duvidosos.

Não foram identificados registros duplicados. Adicionalmente, para cada estudo selecionado, autoria, ano, periódico, volume, paginação e DOI foram verificados individualmente nas fontes primárias, com resolução de eventuais divergências por consulta ao texto completo do artigo. A análise dos artigos selecionados foi realizada de modo crítico e descritivo, considerando delineamento, tamanho amostral, características dos comparadores, duração do seguimento, natureza dos desfechos avaliados e principais limitações metodológicas. Não foram atribuídos escores numéricos de qualidade.

Os dados extraídos incluíram: programa/formato de TP, duração da intervenção, tamanho amostral, características da população, desfechos primários e principais resultados. A síntese foi organizada em tabela padronizada, favorecendo a comparabilidade entre estudos. Em vez da aplicação de instrumentos formais de avaliação de risco de viés, cujo uso não é usual em revisões narrativas, incorporou-se ao Quadro 1 uma coluna de considerações metodológicas, contemplando delineamento, cegamento, tipo de análise (intenção de tratar ou por protocolo), natureza do comparador e limitações reconhecidas pelos próprios autores de cada estudo.

RESULTADOS

A busca executada em julho de 2026 recuperou 161 registros após a aplicação do filtro de idiomas. Foram excluídos 44 registros por tipo de publicação (revisões, meta-análises, editoriais, cartas, protocolos de ensaios clínicos e capítulos de livro), restando 117 estudos primários. Entre estes, 41 correspondiam a ensaios clínicos randomizados.

Os principais motivos de exclusão dos demais estudos primários foram: (a) ausência de desfechos padronizados de comportamento infantil ou de parentalidade avaliados por instrumentos validados; (b) população exclusivamente adulta, sem avaliação de desfechos nas crianças; (c) ausência de componente comportamental estruturado dirigido aos cuidadores; e (d) intervenções multimodais, escolares ou farmacológicas nas quais o efeito específico do treinamento parental não podia ser isolado. Dentre os 41 ensaios randomizados, oito foram selecionados intencionalmente para a síntese crítica apresentada no Quadro 1, segundo os seguintes critérios de priorização, definidos a priori: (a) treinamento parental como intervenção primária, e não como componente de pacote multimodal, escolar ou farmacológico; (b) diversidade de programas estruturados, contemplando modelos distintos; (c) diversidade de formatos de entrega, incluindo grupal presencial, domiciliar e digital; (d) diversidade de contextos geográficos e culturais, contemplando países de alta e de média renda; e (e) avaliação simultânea de desfechos infantis e parentais por instrumentos validados. A seleção não pretendeu exaustividade, conforme discutido nas limitações, e a lista completa dos registros recuperados encontra-se disponível mediante solicitação aos autores.

Os oito estudos incluídos são ensaios clínicos randomizados, com heterogeneidade importante quanto a delineamento e comparadores : dois adotaram três braços de alocação , sendo um deles um microtrial de duas sessões ; um ensaio multicêntrico comparou treinamento domiciliar a lista de espera e a cuidado usual domiciliar ; um ensaio de pequena escala incorporou desfechos cognitivos objetivos obtidos em laboratório ; e um comparou duas intervenções ativas entre si, sem braço passivo . Os achados devem ser interpretados à luz do peso inferencial distinto de cada delineamento: ensaios com comparadores ativos e análise por intenção de tratar oferecem estimativas mais conservadoras, ao passo que ensaios de pequeno porte, com comparadores passivos ou análise por protocolo, exploram sobretudo viabilidade, aceitabilidade e aplicabilidade em contextos específicos. As amostras contemplam crianças em idade escolar (3 a 13 anos) na maioria dos estudos; os grupos controle variaram entre lista de espera, tratamento habitual e intervenções ativas. O Quadro 1 organiza os principais achados.

Síntese dos achados clínicos

De forma geral, a maioria dos estudos demonstrou reduções estatisticamente significativas de sintomas de TDAH e de comportamentos externalizantes nas crianças cujos pais participaram dos programas, avaliados por instrumentos como a S wanson, Nolan and Pelham Rating Scale (SNAP-IV), a ADHD Rating Scale-IV, a Eyberg Child Behavior Inventory (ECBI), a Child Behavior Checklist (CBCL) e o Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ) . Os benefícios foram mais consistentes para comportamentos opositores e de desobediência do que para sintomas nucleares de desatenção, especialmente nos programas com menor duração .

Paralelamente às melhorias comportamentais nas crianças, os estudos documentaram desfechos parentais favoráveis, ainda que de forma menos uniforme. Reduções significativas no estresse parental foram observadas em dois dos oito estudos incluídos , enquanto o ensaio canadense não encontrou diferença entre os grupos nesse desfecho . O senso de competência parental ( Parenting Sense of Competence Scale — PSOC ) melhorou em dois estudos , e a autoeficácia parental, desfecho primário do ensaio sueco, apresentou aumento com tamanho de efeito grande (d = 0,85) . Sintomas depressivos dos cuidadores foram avaliados em dois estudos, sem diferenças significativas entre os grupos , achado que convém registrar explicitamente para evitar a atribuição ao TP de benefícios não demonstrados.

Desfechos relacionados à qualidade de vida da criança foram avaliados em apenas um dos estudos incluídos, por meio do Kidscreen-52 , com melhora no domínio físico tanto para as crianças quanto para os pais. Nenhum dos estudos incluídos avaliou desempenho escolar por meio de informantes independentes, como professores, e o único ensaio que mensurou prejuízo funcional global não encontrou diferença entre os grupos . Uma leitura comparativa dos estudos do Quadro 1 permite identificar padrões relevantes.

Os programas com maior número de sessões e componente cognitivo explícito, como o MBPT (Mah et al. , 12 sessões) e o modelo baseado em Kazdin (Paiva et al. , 6 sessões), produziram os efeitos mais abrangentes, alcançando simultaneamente comportamento da criança e variáveis parentais.

Os programas de menor duração, como o micro-trial holandês (Hornstra et al. , 2 sessões), demonstraram efetividade para comportamentos problemáticos imediatos, mas com escopo naturalmente mais restrito. Os formatos com entrega digital, representados pelo I-BPT chinês, inteiramente online (Fan et al. ), e pelo braço online do ensaio brasileiro (Paiva et al. ), produziram efeitos na mesma direção dos observados em formatos presenciais; no ensaio brasileiro, único a contrastar as duas modalidades dentro do mesmo protocolo, não houve diferença entre elas (p = 1,000). Esses dados são sugestivos, mas não autorizam conclusão de equivalência, uma vez que nenhum dos estudos foi delineado como ensaio de não inferioridade com poder específico para essa comparação. Por fim, o único estudo focalizado em desfechos cognitivos objetivos (Yao et al. , controle inibitório) ilustra a ampliação dos desfechos avaliados além dos sintomas comportamentais clássicos. O ensaio domiciliar holandês (Nobel et al. , para crianças com sintomas disruptivos persistentes após o tratamento de rotina) acrescenta evidência sobre a etapa seguinte do cuidado, com tamanhos de efeito moderados a grandes tanto em relação à lista de espera (ES entre 0,60 e 0,89) quanto ao cuidado usual domiciliar (ES entre 0,57 e 0,89).

Quanto às modalidades de entrega, três estudos avaliaram formatos online ou híbridos . Esses estudos demonstraram efetividade comparável aos formatos presenciais nos desfechos primários avaliados: no ensaio brasileiro não houve diferença entre as modalidades presencial e online (p = 1,000) ; o I-BPT chinês reduziu sintomas de TDAH e estresse parental em comparação ao cuidado clínico de rotina ; e o Triple P adaptado, combinando sessões grupais, contatos telefônicos e suporte remoto, aumentou a competência parental . A adesão foi descrita como satisfatória, ainda que o ensaio chinês tenha registrado 20% de perdas em ambos os braços . Entretanto, os formatos digitais mostraram limitações na avaliação de aspectos relacionais e na personalização das técnicas, aspectos que os autores apontam como direção para pesquisa futura.

DISCUSSÃO

Os achados desta revisão são compatíveis com o entendimento de que o treinamento parental figura entre as intervenções não farmacológicas mais estudadas e com evidência favorável consistente para o TDAH em crianças e adolescentes.

A convergência dos resultados comportamentais, especificamente a redução de sintomas de TDAH e de comportamentos opositores avaliada por instrumentos padronizados, em estudos com formatos e contextos culturais distintos, sugere replicabilidade do efeito . Cabe assinalar, contudo, que a síntese aqui apresentada baseia-se exclusivamente em ensaios clínicos randomizados selecionados de forma intencional, e que o peso inferencial varia entre eles conforme o comparador empregado, o tamanho amostral e o tipo de análise, o que recomenda cautela na leitura agregada dos achados .

Mecanismos de ação e fundamentos teóricos

O substrato teórico do TP fundamenta-se na compreensão de que comportamentos problemáticos da criança com TDAH são parcialmente mantidos por ciclos coercitivos na interação parente-filho, descritos originalmente por Patterson e refinados por Barkley em seu modelo de autorregulação . Ao modificar as contingências ambientais, ao substituir respostas coercitivas por reforço positivo e comunicação assertiva, o TP interrompe esses ciclos e favorece a aprendizagem de novos padrões de interação, com aquisição e manutenção de repertórios adaptativos pela criança. Cumpre esclarecer que não se pressupõe, aqui, alteração neurobiológica documentada: os estudos incluídos avaliaram desfechos comportamentais relatados pelos cuidadores e, em um único caso, medidas laboratoriais de controle inibitório , sem correlatos de neuroimagem ou de outros marcadores biológicos. A integração de componentes cognitivos, como a reestruturação de crenças disfuncionais dos pais acerca do comportamento dos filhos e do diagnóstico de TDAH, adiciona um estrato terapêutico que opera sobre o estresse parental e o senso de autoeficácia, variáveis mediadoras da resposta ao tratamento .

A redução do estresse parental documentada em dois dos oito estudos incluídos não é trivial. A literatura anterior documenta que o estresse parental funciona como variável mediadora entre a psicopatologia da criança e os desfechos de tratamento: cuidadores com menor estresse são mais consistentes na aplicação das técnicas aprendidas, mais receptivos às intervenções e apresentam menor risco de abandono dos programas . Melhorar o bem-estar parental, portanto, não é apenas um benefício secundário, mas um mecanismo de sustentação dos ganhos comportamentais da criança. Cabe registrar, contudo, que o ensaio canadense não encontrou diferença entre os grupos quanto ao estresse parental , o que reforça a leitura de que esse desfecho não responde uniformemente ao treinamento parental.

Heterogeneidade dos programas e efetividade diferencial

A heterogeneidade dos programas avaliados, a saber: Triple P , IPSA (adaptado a pais com TDAH), treinamento parental domiciliar, microtrial de técnicas isoladas, programas baseados nos modelos de Barkley e de Kazdin e adaptações nacionais, é ao mesmo tempo uma força e uma limitação do campo. É uma força porque demonstra a generalização do efeito a diferentes formatos e contextos culturais; é uma limitação porque dificulta comparações diretas de efetividade entre programas e torna difícil identificar quais componentes específicos são os mais ativos .

Na leitura comparativa dos estudos incluídos, os programas mais extensos e com componente cognitivo explícito, como o MBPT de 12 sessões e o IPSA de 14 sessões , este último com efeito grande sobre a autoeficácia parental (d = 0,85), alcançaram simultaneamente desfechos infantis e parentais, ao passo que o microtrial de duas sessões produziu efeitos consistentes sobre os comportamentos-alvo imediatos, porém com escopo naturalmente mais restrito. A durabilidade dos ganhos além de alguns meses permanece pouco documentada nos estudos incluídos e é objeto de meta-análise específica, que aponta manutenção parcial dos efeitos no médio prazo . Essa variabilidade aponta para a necessidade de pesquisa que identifique a "dose" mínima efetiva para diferentes perfis de famílias.

Modalidades digitais e acessibilidade

A expansão das modalidades de entrega digital constitui avanço relevante documentado pela literatura do período 2020-2026. Três dos estudos incluídos avaliaram formatos online ou híbridos e documentaram resultados favoráveis nos desfechos investigados . Apenas um deles, contudo, comparou diretamente as modalidades presencial e online dentro do mesmo protocolo, sem ter sido delineado como ensaio de não inferioridade ; os demais compararam intervenções digitais a comparadores passivos ou a cuidado de rotina. Ainda assim, a disponibilidade de formatos digitais tem implicações relevantes para países com extenso território e desigualdade de acesso, como o Brasil, onde a distribuição de psicólogos e profissionais habilitados a conduzir TP é geograficamente concentrada, podendo ampliar o alcance dessas intervenções. A magnitude comparativa de efeito entre modalidades, entretanto, permanece a ser estabelecida por ensaios delineados especificamente para essa finalidade.

Entretanto, os estudos também identificaram limitações das plataformas digitais: menor fidelidade à intervenção nos grupos online, dificuldade em personalizar técnicas para situações específicas de cada família e ausência de observação direta da interação parente-filho . Pesquisas futuras precisam desenvolver protocolos que compensem essas limitações, possivelmente por meio de sessões individuais periódicas combinadas ao formato grupal remoto.

Qualidade de vida e desfechos funcionais

Outro conjunto de achados relevante refere-se à qualidade de vida e ao funcionamento escolar. Apenas um dos estudos incluídos avaliou formalmente a qualidade de vida da criança, documentando melhora no domínio físico tanto para as crianças quanto para os pais . Ainda assim, esses dados dialogam com o entendimento de que o TDAH não é apenas um transtorno de sintomas, mas de comprometimento funcional: o que a criança e a família ganham em termos de funcionamento cotidiano, como relacionamentos mais harmoniosos, menor conflito e melhor desempenho nas tarefas domésticas e escolares, é ao menos tão importante quanto a redução de escores em escalas diagnósticas. A escassez de desfechos de qualidade de vida entre os estudos recentes é, em si, uma lacuna a ser assinalada.

A escassez de estudos com avaliação sistemática de professores como fonte de informação independente é uma lacuna notável e clinicamente relevante. No TDAH, a generalização dos ganhos terapêuticos para o ambiente escolar é um dos principais indicadores de sucesso do tratamento multimodal: uma criança que apresenta melhora no contexto doméstico, mas mantém comprometimento acadêmico e social na escola, não atingiu o desfecho funcional esperado. Grande parte dos dados comportamentais dos estudos incluídos baseia-se exclusivamente em relatos parentais, que estão sujeitos a viés sistemático: pais que participaram de programas de TP e experimentaram redução do próprio estresse e aumento da autoeficácia tendem a relatar melhoras nos filhos de forma mais positiva do que avaliadores independentes, o que pode inflar as estimativas de efeito reportadas .

Esse viés de informante é estrutural em estudos de TP e representa uma limitação que a área precisa endereçar. Ensaios futuros deveriam incorporar obrigatoriamente avaliações por professores como desfecho independente, observação direta da interação parente-filho e medidas neuropsicológicas objetivas em contextos ecologicamente válidos.

Limitações metodológicas e risco de viés

A evidência disponível apresenta limitações importantes que merecem consideração. A maioria dos estudos é de pequeno a médio porte (n < 100), com períodos de seguimento frequentemente curtos (3 a 6 meses após intervenção), o que impede conclusões robustas sobre a durabilidade dos efeitos . A heterogeneidade nos desfechos primários, com alguns estudos focando comportamento da criança, outros competência parental, outros estresses ou qualidade de vida, dificulta comparações diretas e sínteses quantitativas. Acrescente-se que a quase totalidade dos desfechos foi obtida por relato dos próprios cuidadores, que não estavam cegos à alocação, com exceção do ensaio domiciliar holandês, no qual as famílias desconheciam qual dos tratamentos domiciliares recebiam , e do ensaio japonês, que incorporou tarefas cognitivas laboratoriais .

Adicionalmente, a maior parte dos estudos empregou comparadores passivos ou de baixa intensidade (lista de espera, cuidado de rotina ou tratamento habitual), o que pode inflar a estimativa de efeito por expectativas dos participantes. Apenas três estudos incluídos utilizaram comparadores ativos: o ensaio canadense contrastou duas versões do próprio treinamento entre si , o microtrial holandês comparou dois conjuntos distintos de técnicas comportamentais , e o ensaio domiciliar holandês incluiu, além da lista de espera, um braço de cuidado usual domiciliar, mantendo as famílias desinformadas quanto ao tratamento recebido . A escassez de estudos com mascaramento adequado dos avaliadores e de dados de seguimento além de 12 meses representa lacuna crítica para a prática clínica.

Quanto às limitações desta revisão, cabe notar que a revisão sistemática de Marquet-Doléac et al. e a meta-análise de Doffer et al. foram utilizadas como literatura de apoio na discussão, não como estudos primários incluídos na síntese, distinção que o leitor deve ter em mente ao interpretar as citações. Pelo mesmo motivo, o ensaio de Turan et al. , conduzido na Turquia com o Parents Plus Children’s Programme em crianças com sintomas residuais apesar do tratamento farmacológico, foi utilizado como literatura de apoio, e não como estudo incluído, uma vez que o periódico em que foi publicado não é indexado na base consultada e, portanto, não é recuperável pela estratégia de busca declarada. Adicionalmente, a busca restrita ao PubMed/MEDLINE representa uma limitação inerente ao delineamento narrativo adotado: estudos relevantes indexados exclusivamente em PsycINFO, Embase, Scopus ou bases regionais latino-americanas podem não ter sido capturados. Essa escolha foi intencional e justificada pela abrangente cobertura do PubMed/MEDLINE para ensaios clínicos em psiquiatria e saúde da criança, mas deve ser considerada pelo leitor na interpretação do alcance da síntese. Além disso, o caráter narrativo implica risco inerente de viés de seleção e síntese, mitigado parcialmente pelo uso de critérios claros de inclusão/exclusão e pela análise crítica estruturada dos estudos.

Por fim, e de modo central, a seleção dos oito estudos analisados em profundidade foi intencional e não exaustiva: dentre os 117 estudos primários recuperados pela busca, priorizaram-se ensaios clínicos randomizados que avaliaram o treinamento parental como intervenção primária, contemplando diversidade de programas, formatos de entrega e contextos geográficos. Trata-se de escolha coerente com o delineamento narrativo e com os princípios da SANRA, mas que impede afirmações sobre a totalidade da evidência produzida no período e que deve ser considerada na interpretação dos achados. Uma revisão sistemática com meta-análise, contemplando múltiplas bases e avaliação formal de risco de viés, permanece recomendada como passo seguinte.

Implicações clínicas e perspectivas futuras

Do ponto de vista clínico, os achados sustentam que o TP baseado em princípios cognitivo-comportamentais deve ser considerado no planejamento do tratamento multimodal do TDAH em crianças e adolescentes, independentemente da decisão pela farmacoterapia. Indicações prioritárias incluem famílias com alto estresse parental, comportamentos opositores proeminentes, resistência ou contraindicação ao tratamento medicamentoso, crianças em idade pré-escolar (onde o TP constitui primeira linha recomendada) e contextos com comorbidades como Transtorno Opositivo Desafiador .

A integração do TP ao arsenal clínico do psiquiatra infanto-juvenil exige não apenas conhecimento dos programas disponíveis, mas também competência para identificar barreiras de acesso, adaptar o formato à realidade familiar e monitorar desfechos ao longo do tempo. A literatura recente sobre implementação demonstra que a fidelidade ao protocolo e a supervisão do terapeuta constituem moderadores críticos dos resultados, elementos frequentemente negligenciados em contextos de saúde pública .

Um desafio clínico e ético particularmente relevante diz respeito às famílias em que o próprio cuidador apresenta TDAH, condição prevalente dado o caráter altamente hereditário do transtorno. Pais com TDAH tendem a apresentar menor consistência na aplicação das técnicas aprendidas, maior taxa de abandono e resposta atenuada aos formatos convencionais de TP, precisamente pelas dificuldades executivas que o transtorno impõe. A fidelidade ao protocolo, portanto, não é apenas uma variável de implementação: ela é um desfecho intermediário que o clínico precisa monitorar ativamente, adaptando formato, frequência e suporte conforme o perfil neuropsicológico do cuidador .

As perspectivas futuras apontam para o desenvolvimento de TP de precisão, com adaptações baseadas no perfil neuropsicológico da criança, nas características cognitivas dos pais (incluindo TDAH parental, que é prevalente e impacta a adesão) e nos recursos socioeconômicos da família. Avanços em tecnologias de monitoramento ecológico momentâneo (EMA) e plataformas de gamificação para treino de habilidades parentais em ambientes digitais ampliam consideravelmente o horizonte de possibilidades para próxima década .

CONCLUSÃO

Em conjunto, os ensaios clínicos randomizados analisados indicam que o treinamento parental baseado em princípios cognitivo-comportamentais constitui intervenção com evidência favorável para o manejo do TDAH em crianças e adolescentes, com benefícios documentados sobre comportamentos externalizantes e práticas parentais e, em parte dos estudos, sobre estresse parental, autoeficácia dos cuidadores e qualidade de vida. A amplitude de formatos disponíveis, nas modalidades presencial, grupal, individual, domiciliar, digital e híbrida, amplia a aplicabilidade clínica e potencialmente o alcance populacional dessas intervenções.

No entanto, a heterogeneidade dos programas e dos delineamentos, a predominância de seguimentos curtos, a dependência de relatos parentais como desfecho primário e a natureza intencional e não exaustiva da seleção impõem cautela na generalização das conclusões. Mesmo entre ensaios randomizados, o peso inferencial difere: estudos com comparadores ativos, alocação oculta e análise por intenção de tratar oferecem estimativas mais conservadoras que ensaios de pequeno porte com comparadores passivos. Estudos multicêntricos, de maior duração, com avaliadores independentes e desfechos padronizados, bem como revisões sistemáticas com meta-análise e avaliação formal de risco de viés, são necessários para consolidar recomendações baseadas em evidências de alta qualidade. O TP deve ser compreendido não como substituto da farmacoterapia, mas como componente relevante do cuidado multimodal em TDAH, capaz de atuar sobre dimensões que os medicamentos não alcançam: as interações familiares, as cognições parentais, o estresse dos cuidadores e a qualidade de vida da família. Sua incorporação consistente à prática clínica é sustentada pela evidência disponível e coerente com um cuidado centrado na criança e na família.

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Debates em Psiquiatria, Rio de Janeiro. 2026