Experiências anômalas e transtornos psicóticos: entre o diagnóstico e a cultura

Autores

DOI:

https://doi.org/10.25118/2763-9037.2026.v16.1564

Palavras-chave:

saúde mental, transtornos mentais, transtornos psicóticos, diagnóstico diferencial, espiritualidade, cultura

Resumo

Introdução: As experiências anômalas (EAs) correspondem a vivências subjetivas incomuns, frequentemente confundidas com manifestações psicóticas. No entanto, quando não implicam sofrimento significativo ou prejuízo funcional, podem não estar associadas a quadros patológicos. Objetivo: Este estudo tem como objetivo analisar os critérios que diferenciam as EAs dos transtornos psicóticos, considerando aspectos clínicos, subjetivos e culturais. Método: Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, conduzida conforme as recomendações da SANRA nas bases PubMed/MEDLINE e SciELO, com buscas complementares no Google Scholar, incluindo estudos publicados principalmente entre 2019 e 2024, selecionados conforme critérios de relevância clínica e teórica. Os dados foram organizados em eixos temáticos: aspectos clínicos, subjetivos, culturais, neurobiológicos e instrumentos de avaliação. Discussão: Os achados sugerem que a diferenciação diagnóstica envolve, entre outros aspectos, a presença de insight preservado, a ausência de prejuízo funcional significativo, o caráter autolimitado das vivências e a compatibilidade com o contexto cultural. Por outro lado, sinais como persistência, desorganização do pensamento, prejuízo funcional e presença de comorbidades psiquiátricas estão associados a maior probabilidade de psicopatologia. Estudos de neuroimagem apontam padrões distintos entre indivíduos não clínicos com EAs e pacientes com transtornos psicóticos, enquanto instrumentos como o Community Assessment of Psychic Experiences (CAPE) e a Cardiff Anomalous Perceptions Scale (CAPS) podem auxiliar na avaliação e triagem. Conclusão: Em conjunto, esses achados indicam que a compreensão das EAs se beneficia de uma abordagem multidimensional e culturalmente sensível, com potencial para reduzir tanto a medicalização desnecessária quanto o subdiagnóstico de transtornos psicóticos, contribuindo para uma prática clínica mais precisa e humanizada.

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Biografia do Autor

Julia Lais Ressel, Centro Universitário Cesumar

http://lattes.cnpq.br/0316168015803561
Graduanda, Medicina, Universidade Cesumar, UniCesumar, Maringá, PR, Brasil. 

Khadija Hajar Costa, Centro Universitário Cesumar

http://lattes.cnpq.br/4212473695401499
Graduanda, Medicina, Universidade Cesumar, UniCesumar, Maringá, PR, Brasil.

Pedro Marcelo Moro, Centro Universitário Cesumar

http://lattes.cnpq.br/5250603120355760
Médico Homeopata, Universidade Cesumar, UniCesumar, PR, Brasil

Vlaudimir Dias Marques, Universidade Estadual de Maringá

http://lattes.cnpq.br/2027241193004395
Cirurgião Torácico, Universidade Estadual de Maringá, UEM, PR, Brasil.

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Publicado

2026-05-20

Como Citar

1.
Ressel JL, Costa KH, Moro PM, Marques VD. Experiências anômalas e transtornos psicóticos: entre o diagnóstico e a cultura. Debates Psiquiatr. [Internet]. 20º de maio de 2026 [citado 24º de maio de 2026];16:1-31, e1564. Disponível em: https://revistardp.org.br/revista/article/view/1564

Edição

Seção

Artigos de Revisão

Plaudit